Doação de óvulos e menopausa precoce é uma associação que suscita dúvidas em muitas mulheres que ponderam tornar-se dadoras. A doação de óvulos é um ato voluntário e altruísta através do qual uma mulher doa os seus óvulos para ajudar outras pessoas a concretizarem o desejo de serem mães ou pais. Trata-se de um processo altamente regulamentado, com critérios médicos rigorosos que garantem a segurança da dadora.
No entanto, nos últimos anos, surgiram dúvidas sobre se doar óvulos pode aumentar o risco de desenvolver menopausa precoce. Neste artigo, esclarecemos esta questão com base numa perspetiva médica e na evidência científica mais recente.
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ToggleO que é a menopausa precoce?
A menopausa precoce, também conhecida por insuficiência ovárica primária (IOP), caracteriza-se pela interrupção da função ovárica antes dos 40 anos. Isto implica uma diminuição da reserva ovárica e o aparecimento de sintomas como:
- Alterações menstruais ou ausência de menstruação (amenorreia)
- Afrontamentos
- Alterações de humor
- Secura vaginal
- Problemas de fertilidade
Estima-se que a insuficiência ovárica primária afete aproximadamente 1% das mulheres com menos de 40 anos.
A reserva ovárica e o seu papel na doação
Cada mulher nasce com um número finito de folículos ováricos (entre 1 e 2 milhões), que vão diminuindo progressivamente com a idade. Na puberdade, estima-se que restem cerca de 300.000. De todos estes folículos, apenas cerca de 400 a 500 irão ovular ao longo da vida reprodutiva.
Num ciclo natural, o organismo recruta vários folículos, mas normalmente apenas um amadurece totalmente e ovula. Num ciclo de estimulação ovárica para a doação de óvulos, são administradas hormonas para permitir que vários folículos amadureçam ao mesmo tempo.
No entanto, é importante salientar que não são “gastos” óvulos que o organismo não utilizaria nesse mês. Os folículos estimulados são precisamente aqueles que iriam degenerar durante esse mesmo ciclo.
A doação de óvulos pode antecipar a menopausa?
Numerosos estudos demonstraram que a estimulação ovárica controlada utilizada nos tratamentos de fertilidade, incluindo a doação de óvulos, não reduz a reserva ovárica total nem acelera o aparecimento da menopausa.
Um estudo publicado na revista Fertility and Sterility (Practice Committee of the ASRM, 2008) concluiu que os medicamentos utilizados na estimulação ovárica não afetam a reserva ovárica a longo prazo.
Outro estudo publicado na revista Human Reproduction (Westergaard et al., 2012) não encontrou qualquer evidência de que as mulheres submetidas a vários ciclos de estimulação apresentassem um risco mais elevado de menopausa precoce quando comparadas com a população em geral.
Isto acontece porque os folículos que se desenvolvem com a estimulação hormonal já estavam destinados a degenerar caso não fossem utilizados. A estimulação limita-se a aproveitar esse grupo de folículos que já tinha sido recrutado nesse ciclo.
Limites legais e éticos na doação
Em Portugal, a Lei 32/2006 sobre Procriação Medicamente Assistida estabelece que:
- As dadoras devem ter entre 18 e 34 anos.
- Devem cumprir critérios de saúde física e psicológica.
- Apenas é permitido um número limitado de doações por mulher (4 doações na totalidade).
Acompanhamento médico e personalização do tratamento
Cada mulher interessada em fazer uma doação de óvulos é submetida a uma avaliação médica completa para analisar a sua reserva ovárica através de:
- Ecografia transvaginal (contagem de folículos antrais)
- Análises hormonais (FSH, LH, estradiol e AMH)
Com base nestes resultados, o tratamento é adaptado a cada mulher para minimizar qualquer risco e evitar uma hiperestimulação ovárica.
O acompanhamento contínuo permite ajustar a medicação e detetar precocemente qualquer alteração.
A importância do consentimento informado
Embora a evidência científica atual indique que a doação de óvulos não aumenta o risco de menopausa precoce, é fundamental que todas as dadoras recebam informação clara sobre:
- Como é realizado o tratamento.
- Quais são os possíveis efeitos secundários temporários.
- Quais são os riscos, ainda que pouco frequentes (como a hiperestimulação ovárica).
O consentimento informado deve ser completo, voluntário e adaptado ao nível de compreensão de cada mulher.
Doação de óvulos e menopausa precoce: não existe evidência de uma relação direta
Com base na literatura científica disponível, não existe qualquer evidência que relacione a doação de óvulos com um aumento do risco de menopausa precoce. Todo o processo é realizado de acordo com protocolos rigorosos e critérios médicos específicos destinados a proteger a saúde das dadoras.
A decisão de fazer uma doação de óvulos é pessoal e deve ser tomada com toda a informação necessária.
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📃 Referências:
- Nelson, L. M. (2009). Prática clínica. Insuficiência ovariana primária. New England Journal of Medicine, 360(6), 606‖614. https://www.nejm.org/doi/full/10.1056/nejmcp0808697
- Comité de Prática da Sociedade Americana de Medicina Reprodutiva (2008). Síndrome de hiperestimulação ovariana. Fertility and Sterility, 90(5), S188-S193. https://www.fertstert.org/article/S0015-0282(08)02195-5/fulltext
- Westergaard, L. G., Erb, K., Laursen, S. B., Rex, S., & Andersen, A. N. (2012). A taxa cumulativa de gravidez e o número de embriões necessários para a gravidez após a fertilização in vitro. Human Reproduction, 27(11), 3120-3126. https://academic.oup.com/humrep/article/27/11/3120/2915741
- Jornal Oficial da República Portuguesa. Lei n.º 32/2006 sobre Procriação Medicamente Assistida.








